Notícias de outrora

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4 de novembro de 2021 0 Por Folha Valle
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Cultura & Literatura por Madalena Daltro Fonseca

Em Lorena, quando as nuvens cobrem a Mantiqueira, o horizonte se amplia.

É assim em todo Vale. Perdemos a serra de vista, mas ganhamos uma paisagem por dia. Lamentavelmente isso não acontece nas nossas consciências, quanto mais nuvens no pensamento, menos clareza de raciocínio, mais encurtada a visão e por consequência, as escolhas são pífias, vamos minguando aos poucos, perdendo ousadia em inovar e por vezes aceitando uma vida apática e pálida.

A jaula onde se encontra a nossa criatividade nos priva de ampliar os horizontes da própria vida, e como desgraça pouca é bobagem, a liberdade está às grades da mesma cela.

A criatividade requer um mínimo de liberdade e para ser livre é preciso ser criativo, a rotina também nos enjaula e encurta nossos horizontes. A terra gira em próprio eixo, em seu equilíbrio oscila e avança… Enquanto muitos de nós damos dois passos para frente e dois para trás…

Liberdade é uma palavra de significado restrito ou utópico, é como percebo; toda liberdade é condicional, assim como toda defesa é legítima. Em todo caso, as atualidades estão muito tediosas e sem criatividade. Boa briga mesmo se via era nas notícias de outrora, nos séculos anteriores.

A história se repete, enfadonha, pobre e rotineira nas nossas ‘novidades’. Caio Coppolla demitido, Luís Ernesto Lacombe demitido, Alexandre Garcia demitido… Garcia e Coppolla contratados, Lacombe contratado; Terça Livre fechado e Allan dos Santos exilado… Oswaldo Eustáquio preso, quando liberto, já não tinha caminhava mais. Atualmente parece estar em liberdade, condicional… O alarido agora gira em torno das expressivas demissões da emissora criada pelo Marinho.

Demissão muito conhecida, de um jornal, teve o escritor José de Alencar.

 “Um resumo do que ocorreu: com a extinção do tráfico de escravos, em 1850, muito dinheiro começou a circular na economia brasileira e a Bolsa tornou-se o centro da agiotagem e das especulações financeiras que proporcionavam lucro fácil aos que já eram ricos. Alencar viu, analisou e denunciou: Todo mundo quer ações de companhias (…) As cotações variam a cada momento, e sempre apresentando uma nova alta de preços. Não se conversa sobre outra coisa… A direção do jornal, que obviamente tinha interesses econômicos a preservar, censurou o artigo e Alencar  demitiu-se. Em 8 de junho de 1855, assinou pela última vez sua coluna, nela registrando: Dantes os homens tinham as suas ações na alma e no coração, agora têm-nas no bolso.”[i]

Há quem diga que os cancelamentos de hoje em dia não passam de puxões de cabelo frente à arena em que se digladiavam Assis Chateubrian contra Samuel Wainer e Carlos Lacerda contra Samuel Wainer, no fim das contas, todos contra todos. E povo… Bom, o povo, que é o povo? O povo é Roma, diria um Imperador Romano.

Sem alternativa ou opções a serem escolhidas não há liberdade. Jornalistas que pensam com a própria cabeça sabem muito bem o valor da liberdade, impressionam-me os que negam a liberdade ao povo, numa subserviência ao patrão ou os que por conta própria presume que povo seja incapaz de tirar a própria conclusão diante de uma moeda com dois lados.

Outro fato curioso, em um passado não tão distante, num dado momento da vida profissional, Zózimo, então colunista do Jornal do Brasil – JB tinha a liberdade como critério de decisão entre aceitar ou não, o convite para ir para o jornal O Globo:

“ele achava que poderia não encontrar no Globo o ambiente de liberdade de que gozava no JB. Ainda que pudesse haver, no ar, um certo direcionamento, não havia hipótese de o jornal obrigá-lo a dar uma determinada nota. Poderiam, sim, haver pedidos que, sempre que possível, eram aceitos. Da mesma forma, nunca foi impedido, a não ser pela censura militar, de publicar o que desejasse. Zózimo temia que o mesmo poderia não ocorrer no Globo, cuja linha editorial sofria forte influência de Roberto Marinho. Assustava-o a possibilidade de ser proibido de noticiar o que desejasse ou, pior, receber uma ordem para publicar algo.”[ii]

Os jornais existem, mas Zózimo e Alencar não existem mais. Antes que me esqueça, José de Alencar acabou comprando o jornal do qual demitira-se. O mundo dá voltas!

Sempre achei no mínimo brega essa coisa de proselitismo religioso ou mover a opinião pública… Subestimam ou agem de má fé, ou ambos. Cada um usa a própria régua para medir o próximo… Depois, cada qual em sua própria bolha, reclama da bolha alheia.

Como dissera José Saramago “Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.” É como impedir que o horizonte se amplie, é uma forma de impor cabresto, as nuvens mudam a paisagem porque são livres para circular, a liberdade é o que favorece a mudança e é isso que temem os estáticos defensores do status quo.


[i] FARACO, Carlos. Vida & Obra. José de Alencar. Série Bom Livro – Lucíola. Ed.Ática.

[ii] AMARAL, Fernando Barrozo do, 1969. Zózimo Diariamente. São Paulo: EP&A Consultoria em Comunicação, 2005-12-02. Vários Colaboradores.

Madalena Daltro Fonseca é mestre em Gestão e Auditoria Ambiental, escritora e palestrante.

CONTATO: madalenadfonseca@gmail.com