Paciência (Ulisses e Circe)

Paciência (Ulisses e Circe)

24 de novembro de 2021 0 Por Folha Valle
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Cultura & Literatura por Madalena Daltro Fonseca

Circe feiticeira, decidida a provar a sua lealdade,

Ruma, então, para a pocilga a passos firmes,

onde estão amontoados os porcos de Ulisses,

e lá lhes toca, um por um, com sua vara mágica,

devolvendo-lhe a antiga e saudosa forma humana.

E tão satisfeito ficaram todos naquela ilha,

que hóspedes da feiticeira se tornaram desde então.

Recusando-se a partir no rumo da saudosa Ítaca,

comendo e bebendo fosse dia ou fosse noite,

enquanto Ulisses fruía dos prazeres do seu leito.

Um ano, entretanto, passado em descanso e vida mansa,

Bastou para acordar nos soldados o sentimento do dever;

Então, (Ulisses) o filho de Laertes, tomando as mãos da sedutora,

disse-lhe com voz chorosa estas súplices palavras:

“Circe, deixa que partamos no curso de nossa casa!”

(p. 265)*

Na época do ano em que os dias são maiores que as noites, o relógio biológico volta a funcionar com pontualidade britânica.

Dia desses a caminhada matutina começou antes das 6h. Passados 30 min, os carros saíam das garagens com a mesma frequência com a qual os pombos voltam para os pombais ao entardecer.

Impossível não observar que todos os carros saíam de ré das garagens. A pessoa que chega com saudades do lar não quer ficar nem mais um minuto na rua. Será que só eu guardo o carro de ré? Não. Talvez seja só uma questão de hábito criado não sei por quais circunstâncias. Recuso-me a começar o dia andando para trás. No Rio de Janeiro a prática de guardar os carros de ré é mais comum, faz parte da direção defensiva. Recuso-me também a tirar férias em janeiro. É como se eu começasse o ano sem torque e sem gás. As férias em janeiro são disputadíssimas em Brasília, pois para mim era o mês da utilidade sossegada.

São as ansiedades da vida, que a gente direciona para certas manias que nos dão a sensação e o conforto de algum controle. É necessário repetir todos os dias: “Há tempo para todas as coisas…” Moisés e seu povo passaram 40 anos atravessando o deserto, montando e desmontando acampamento… Ulisses, depois da vitória na guerra, com seu presente de grego – o Cavalo de Troia – levou mais de 20 anos na viagem de volta para casa. Um dos seus empecilhos foi o encontro com a feiticeira Circe. Com ela passou mais de um ano nessa Odisseia.

Mas a gente quer mesmo é entrar em casa imediatamente, chegar com brevidade ao trabalho e entrar logo de férias. Com 15 dias de férias já quer voltar ao trabalho, vai que contratam outra pessoa em seu lugar… Mas com 15 dias de trabalho já precisa de novas férias. Tudo bem ser assim, só não podemos reclamar desse monstro chamado ansiedade, já que todos os dias a alimentamos.

Parece que Circe, a feiticeira da Odisseia, que transforma guerreiros em porcos, continua fazendo seus feitiços; dia a dia sua varinha mágica transforma muitos de nós naquilo que mais repudiamos, atrasa nossa chegada ao objetivo, adormece nossos sonhos, dificulta nosso retorno ao lar e pior: impede que conheçamos a nós mesmos. Quer admitamos ou não, muitas vezes nós também somos a Circe na vida de muitos Ulisses…

Desde de que Ulisses partiu para a Guerra de Troia, o seu palácio ficava repleto de pretendentes para lhe tomar a esposa, Penélope. Não havia certeza de que Ulisses estava vivo, nem se estaria retornando para a sua cidade, Ítaca, muitos acreditavam que ele estivesse morto, passado tantos anos.

Todos os dias esses pretendentes promoviam uma festa que pouco a pouco ia dilapidando o patrimônio do rei, mesmo a contragosto da rainha Penélope. É fácil gastar o dinheiro do rei, conhecemos essa história (quando o gato sai, o rato faz a festa). Mas Penélope não queria se casar com nenhum deles e acreditava no retorno de Ulisses. Uma de suas artimanhas foi tecer um manto para ganhar tempo, dizia que quando terminasse aquela tarefa escolheria um dos pretendentes para esposo. Entretanto, durante o dia ela tecia e a noite desmanchava, assim adiava a resposta que os galanteadores esperavam.

Não sei se tem a ver uma coisa com a outra, mas essa história me faz lembrar outra, mais contemporânea: Contam as más línguas que quando um corno chega a casa, ele vem com o som do carro em último volume para dar tempo do amante fugir… Fiquei pensando se o fato de estacionar de ré também não tem o mesmo efeito.

Pois bem, voltando para a Odisseia: quando finalmente Ulisses venceu as dificuldades e superou todos os obstáculos em seu retorno ao lar, ele tratou de chegar de forma discreta à Ítaca, estava disfarçado de mendigo e evitou ser reconhecido.

 Fato é que Ulisses, com paciência e discretíssimo, colocou todos os sedutores pra correr e manteve a sua testa e seu reino intactos. A paciência é a companheira da sabedoria, diria Santo Agostinho.

A paciência por si só é uma Odisseia.

Fonte visitada:

* Franchini, A.S. (Ademilson S), 1964 – As melhores histórias da mitologia: deuses, heróis, monstros e guerras da tradição Greco-romana, vol. 2/A.S.franchini, Carmem Seganfredo.- Porto Alegre, RS: L&PM, 2015.

Madalena Daltro Fonseca é mestre em Gestão e Auditoria Ambiental, escritora e palestrante.

CONTATO: madalenadfonseca@gmail.com